É, meu caro, talvez essas meias não tenham sido realmente feitas para os seus pés. Eu vou continuar aqui ilustrando minhas paredes com desenhos clichês, que variam de finais felizes á princesas nas torres. E com meus olhos frágeis não consigo ainda decifrar se o céu está claro ou se vai chover,talvez porque eu esteja sem meus óculos, talvez porque eu tenha perdido a visão. Deixar em branco é esquecer, é fazer de conta que eu já sei esquecer, e isso eu sei fazer muito bem. Minha garganta tá cansada de tanto argumentar, cheia de palavras que querem a todo custo se soltar, minha mente não pára em nenhum lugar. Procuro uma referência,uma beira pra me segurar. Um álibe. Talvez algo que justifique a falta de coordenação motora ou que explique minhas palavras. Vai ver eu sou assim mesmo, vai ver eu nunca mude. Vai ver é só o tempo que vai passando, e eu continuo no mesmo lugar, da mesma maneira, tentando encontrar as palavras certas pra quando você for ler. Eu não sou ninguém. Eu não tenho nada de mais. Minhas mãos tem calos, e eu conheço poucas palavras bonitas, enfeites gramáticais, eu sei muito pouco sobre a vida. Eu fico bem com pouca coisa, eu presciso de pouca coisa pra ficar feliz. Eu ainda não sei oque eu quero, eu quero sempre oque eu nunca posso ter. Eu me escondo em outras pessoas, eu te vejo em quem não tem nada haver.
Eu escrevo coisas sem nexo, e encontro coisas debaixo da minha cama. Coisas que eu achava ter perdido há muito tempo, e elas estavam alí. Eu tenho medo da noite, eu sempre quero dormir logo, mesmo sem sono. Meus dias são sempre todos iguais, os mesmos caminhos, as mesmas pessoas. Oque me leva a querer sempre viajar pra longe. Voar de avião é bom. Na primeira vez que eu fui, eu chorei, eu sempre choro nas horas erradas. Foi um choro de inesperiência,de medo de ir pra tão longe do meus horizontes, de não enxergar o caminho de casa. Mas quando eu olhei pro lado eu vi as nuvens, e um céu aberto, aberto não só para o sol, mas aberto para mim. Ás vezes tudo que se prescisa é só uma dose de distância, e duas de aminésia, pra esquecer oque não se pode mais lembrar. E o esquecimento é a ausência da lembrança, de qualquer uma que seja, e assim será. Quero viajar.
- María Cavalcanti.

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